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Ferroviário constrói maquete para eternizar paixão por trens

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A miniatura de um vagão da extinta RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A. – de 1957 a 1999) se locomove pelos trilhos de uma maquete construída na região Leste de Juiz de Fora. Com os óculos equilibrados sobre o nariz e agachado na altura de sua obra, seu Adair João da Silva ajeita sobre o trilho a peça vermelha com a sigla RFFSA pintada em amarelo – apenas uma de outros 20 modelos que coleciona. O ferroviário aposentado se tornou ferromodelista há um ano. “Desde a minha infância, eu tinha o sonho de fazer uma maquete. Cheguei a fazer uma miniatura de trem com três vagões com latas de sardinha e carretéis. Eu armava no chão e puxava”, conta, lembrando que os recursos e as tecnologias de sua época de criança eram muito limitados em relação às possibilidades que existem atualmente. Pensando em deixar uma lembrança de sua vida na ferrovia, a intenção do senhor de 64 anos é presentear, no futuro, seu neto de apenas 1 ano. “Não é que eu queira que ele seja maquinista. Espero é que ele goste e tenha uma brincadeira sadia. É uma lembrança do vovô.”

Para adquirir sua coleção e construir a maquete, Adair estima ter gasto cerca de R$ 1 mil com peças adquiridas da empresa Frateschi Trens Elétricos, única fabricante de trens elétricos em miniaturas e réplicas de composições reais na América Latina. O ferroviário também utilizou materiais recicláveis para criar funcionalidades e tornar a obra ainda mais interativa. Colheres de plástico retorcidas simulam postes que abrigam a iluminação pública feita de led, interligada por fios de cobre por onde passa a energia elétrica. Pequenos brinquedos, como carrinhos e bonecos, ajudam a compor o meio urbano, decorado com árvores e um carrossel emprestado da neta mais velha. Pelo longo túnel construído de gesso, os vagões têm mais uma opção de passagem, além daquela que contorna a pequena cidade. O mais engenhoso são as cancelas que impedem o trânsito de carros, como aquelas já conhecidas pelos juiz-foranos que passam por cruzamentos com linhas férreas. Quando o trem passa por determinado ponto dos trilhos, o peso do vagão pressiona um botão que aciona a cancela, abrindo ou fechando. Em outro ponto, é possível acionar o sino que avisa da aproximação do trem. Nos trilhos, polos negativo e positivo transmitem a corrente elétrica que passa para as rodas e os motores dos minivagões, provocando o movimento. Doze volts de energia são utilizados para manter o sistema funcionando.

Entre vagões de transporte de veículos, minério, madeira e combustível, há também aqueles de passageiro. Sua aquisição favorita é uma réplica da Maria Fumaça, a locomotiva a vapor que marcou sua infância. Para ele, a característica que mais a distingue das máquinas atuais é o movimento visível das rodas expostas e interligadas. Por ter uma estrutura diferente, o modelo precisa de um trilho especial que está sendo construído por Adair. Em entrevista, o ferroviário conta que gostaria de ter um vagão de metrô, mas tem cautela em aumentar a coleção por conta do custo das peças.

‘O trem é meu diploma’

Filho e irmão de ferroviários, Adair seguiu a profissão da família por 38 anos e 3 meses, contados no calendário. “Meu pai era porteiro da rede ferroviária, e meu irmão era eletrotécnico. Meu sonho sempre foi ser ferroviário. Quando era mais novo, queria ser maquinista, mas nunca pude por causa da minha audição. Trabalhei na Estação de Benfica e de Mariano Procópio, além de Bom Jardim de Minas. Comecei como apontador e depois fui pegador de escala: pegava o maquinista para buscar o trem em outras cidades e descia pela ferrovia”, relembra.

Para ele, o trem é o transporte mais interessante que existe, pela sua economia e capacidade de transportar grande quantidade de carga, sendo assim uma alternativa de transporte. “Faz falta para a população o trem Xangai”, opina, lembrando do trem que ligava Matias Barbosa ao Bairro Benfica, em Juiz de Fora, no século XX. Apaixonado, ele ainda passeia de Maria Fumaça quando visita Tiradentes e São João del-Rei.

Com quase dez anos de aposentadoria, o ferroviário diz sentir falta de trabalhar na ferrovia e de conviver com as pessoas, e relembra um dos momentos mais marcantes que passou na Rede Ferroviária. Era noite de Natal quando sua família apareceu de surpresa no plantão para lhe fazer companhia. “O trem é o diploma que eu tenho, que me deu o meu trabalho, a minha casa e a minha família”, agradece.

Fonte - Tribuna de Minas - Foto - Fernando Priamo



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